Na secção O Homem do Leme, do JL, vou iniciar uma série de artigos sobre a pirataria. Anetecipo aqui o primeiro:

Para quê comprar um disco quando se pode fazer uma cópia ou um download gratuito na Internet? Esta é a pergunta para a qual milhões de cibernautas em todo o mundo não encontram resposta. Se no que toca à Literatura, a alternativa digital ainda se afigura pouco atraente, no caso da música o problema não se põe: para o utilizador comum, não faz grande diferença ouvir música baixada da Internet em vez de num CD original. Menos diferença faz substituir um original por um disco pirateado. Isto provoca a falada crise no mercado discográfico, que prejudica obviamente os artistas e por consequência os ouvintes.
No tempo do vinil era comum gravar álbuns em cassetes, sem que isso provocasse grande celeuma entre as discográficas, porque estava claro que a cassete gravada era um produto de qualidade inferior. Quando apareceu o CD, as editoras praticaram preços elevadíssimos, como se fosse um produto de luxo. Os CD começaram por ser mais caros do que os vinis: o que é um absurdo, atendendo à diferença de preços de custo. Ou seja, as editoras aproveitaram-se da novidade tecnológica, e das óbvias vantagens que traz aos consumidores, para estender bastante a margem de lucro. Só muito recentemente os preços começaram a baixar e a ritmo lento, devido à pirataria.
Perante isto, a indústria tem um défice de moralidade para exigir que não se pirateie. O consumidor pode, eventualmente, responder com o ditado: «Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Por outro lado, por absurdo, a alternativa à cassete (o mini-disc, o CD-R, o MP3) revelou-se demasiado eficaz para ser tolerada.
Simultaneamente, uma aparente contradição: uma marca como a Sony, ao mesmo tempo que edita discos e se manifesta contra a pirataria, vende CD-R e gravadores de CD. É como um governo que distribui canas de pesca, apresenta um lago cheio de peixes, mas proíbe pescar.
Por outro lado, o vinil é um objecto único e bonito, pelo que é cultivado por muitos coleccionadores. Ninguém se lembra de coleccionar CD, pela mesma razão que ninguém se lembra de coleccionar cassetes de vídeo, porque são objectos frios, esteticamente desinteressantes, isto apesar do esforço recentemente feito para o contrariar: com digipacks e outros formatos criativos que substituem as caixas de plástico. Todavia na música pop (o mesmo não se verifica na música clássica) há ainda pouco cuidado com os conteúdos dos booklet. A informação é muito reduzida. Tenho um amigo que faz as capas das suas cópias com grande gosto estético e no booklet inclui a bibliografia da banda e as críticas ao disco que mais gosta. Ou seja, fica com um objecto superior ao original.
É ingénuo e quase ridículo as editoras exigirem que os consumidores não pirateiem, sem que ofereçam alternativas. O que as editoras devem fazer é, além de baixarem os preços, criar produtos originais de qualidade superior e difíceis de imitar.